Projeto de estudantes da UFSM busca quebrar tabus sobre cannabis sativa

Iniciativa do Último Plano, Uy10+, no Uruguai, tem, entre os projetos, estudo uso do canabidiol no tratamento de sementes de milho

Cultivo de cânhamo, variação da cannabis sativa com menor toxicidade, no Uruguai

Por um mundo melhor

Hoje um grupo acadêmico, o Último Plano surgiu em 2015 como um coletivo de rap, com Heitor e um amigo que viviam em Santos, São Paulo. Com o tempo, entretanto, o interesse em escrever letras mais críticas à sociedade passou a ser maior do que a música em si. Então, em 2020, a iniciativa tomou um viés científico voltado para a sofisticação de processos produtivos.

“A gente viu que, para termos um mundo mais justo, com mais oportunidades para as pessoas, o conhecimento da universidade poderia ampliar as nossas ferramentas. Eu vim de uma zona periférica, vi coisas catastróficas. Muitos jovens se perdem no meio do caminho. Com o estudo, podemos melhorar essa questão. As universidades têm um impacto muito grande na sociedade. Queremos deixar esse legado”, avaliou o co-fundador.

O Uy10+ foi a primeira ideia posta em prática. O trabalho tem estudantes da UFSM e de outras quatro IES: Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Heitor explica que o Uruguai, além da proximidade, foi escolhido por ser o primeiro país do mundo a legalizar a maconha, em 2013.

“Eu via que a periferia não era isso tudo que falavam, era diferente. Nessa vivência, via muitas famílias falando sobre a questão das drogas com ignorância. Nunca era uma discussão e os fins eram sempre os mesmos. Crianças, jovens e adultos que se jogaram nessa vida tiveram uma sentença decretada”, ponderou. Por isso, o estudante diz que “a cannabis sempre foi algo que eu quis desmistificar através da ciência para que assim fosse possível diminuir a ignorância entre as pessoas e impactar na vida dessas pessoas”.

Heitor Bitencourt é estudante de Agronomia na UFSM e co-fundador do Último Plano

Substância extraída do cânhamo pode ser usada para tratar sementes

Uso de canabidiol no tratamento de sementes de milho

Uma das integrantes do Último Plano é a engenheira agrônoma Fabieli Cervo, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Agronomia da UFSM. Após voltar para a Universidade, com o sonho de estudar sobre a cannabis e, como ela define, “por uma feliz coincidência do destino” conheceu Heitor e o projeto Uy10+. 

A pesquisa de Fabieli se chama “Óleos de Cannabis sativa L. na qualidade fisiológica e sanitária de sementes de milho crioulo”. Como a mestranda explica, “meu trabalho investiga a cannabis como um potencial bioproduto para a agricultura. O projeto Uy10+ forma parceria com minha pesquisa, possibilitando-me o uso dos óleos de canabidiol no tratamento de sementes”. A mestranda defende a relevância do estudo: “O desenvolvimento de pesquisas com cannabis no âmbito agrícola é necessário e um passo para a inovação no setor, visto que a cultura é extremamente versátil quanto a seus usos e, principalmente para o Brasil, representa um ato de resistência e quebra de estigma”.

Fabieli é orientada pelo professor Ubirajara Nunes, do Departamento de Fitotecnia do Centro de Ciências Rurais (CCR). O docente admite que o que mais chamou sua atenção foi a proposta de estudar sobre a análise de semestre tratadas com o canabidiol“Por ser uma planta conhecida no mundo inteiro e por ter carência de informações aplicadas à fisiologia das sementes de milho crioulo”, comentou.

Ubirajara conta que, ao fim dos experimentos, espera-se entender um pouco mais do desempenho do canabidiol no que diz respeito à proteção de plantas no tratamento alternativo de sementes, bem como do impacto que o tratamento de sementes tem na qualidade fisiológica e sanitária. “Ao se obter resultados positivos, será possível incentivar o uso nessa cultura e se estender para as demais culturas agrícolas, visto que bioprodutos são menos prejudiciais ao meio ambiente, tornando-se uma forma sustentável de manejo de patógenos e doenças”, projetou o orientador.

Mais que estudar o impacto da cannabis sativa, o trabalho realizado pelo Uy10+ busca conhecer a fundo os benefícios da planta, ainda muito associada à maconha. “Como instituição, é nosso dever atuar no ensino, na extensão e na pesquisa, e o tema proposto pode gerar muitas discussões e descobertas para desmistificar posições até então contrárias ao seu uso no Brasil. Aqui falamos de ciência e uso de recursos de forma sustentável para o correto uso na agricultura, tendo sempre o amparo legal para a sua pesquisa”, avaliou Ubirajara.